Como sobrevivemos
Sábado, 21 de Março – 5º dia
Hoje acordei com a Mariza Monte a cantar um samba muito animado e uma letra apropriada:
(Com vista para o mar – Dita)
E olhando e vendo o espaço onde nos viemos confinar - obrigada Dita por abrigar-nos– observámos como é linda a relva, com o cacto que se estende espreguiçando-se, cujo verde rivaliza com o verde do relvado e como é lindo o azul do céu, em que duas nuvens, uma branca rodeada de sol e outra cinzenta a ameaçar chuva, lutam entre si a primazia de se fazerem notar: será que o sol vai brilhar ou será que vai voltar a chover?
Claro que a nuvem com o sol a espreitar sairá vencedora, e logo nos vem à memória as palavras de Pablo Picasso: ”Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela, o próprio Sol!”
Assim precisamos nós de ver o Sol em cada mancha amarela ….
Sábado, 21 de Março – 5º dia
Hoje acordei com a Mariza Monte a cantar um samba muito animado e uma letra apropriada:
Hoje eu não saio não!
Hoje eu vou ficar em casa, meu bem
Eu quero ver televisão
Não troco meu sofá por nada meu bem
Hoje eu não saio não!
Não quero ver a multidão ….
Neste novo modo de comunicarmos, via WhatsApp, esta canção serviu-me de mote para animar o meu começo de dia.
Ao som do samba, saltámos à corda, fizemos alongamentos, GAP, pilates. Não somos só nós que damos aulas em videoconferência, o Solinca resolveu fazer o mesmo. E estar em casa inativo, não me apraz. Consegui convencer a Samy e o Francisco, meu companheiro de exercício físico, estava maravilhado.
Isto queremos evitar no final da quarentena. Podemos ficar tesos, já que não se esperam bons resultados para a economia, mas gordos e malucos tentaremos evitar.
FIQUE EM CASA, ouvimos constantemente. Nesta nossa reclusão… reclusão? Não, não estamos reclusos, estamos confinados, estamos em quarentena… como quiserem, mas em reclusão não.
Procuramos cumprir as regras – FIQUE EM CASA, ouvimos constantemente. Ficamos em casa sim, mas em reclusão não.
Que tal aproveitarmos para ver o mundo com outros olhos, que tal aproveitarmos para olhar e ver, ver e olhar, sentir tudo a nosso redor de modo diferente. Mesmo no pequeno espaço em que cada um está confinado, o tempo parece tanto que deve sobrar para olhar e ver, desfrutando das pequenas coisas da nossa casa, para a nossa família que antes não o fazíamos. Mas não é tanto assim. O tempo é pouco que parece tanto, mas na realidade o tempo é muito pouco, para o tempo que nos resta.
Hoje, com a chuva a cair, ao fazermos exercício debaixo do alpendre, virados para a parede, de repente, reparámos que estávamos de costas viradas para o mundo, como se esta posição demonstrasse, involuntariamente, a revolta interior de cada um de nós. E que ainda que se possa tentar ver alguma beleza na parede, a beleza estava as nossas costas.
(Com vista para o mar – Dita)
E, voltando os olhos para o mundo, pela primeira vez, observámos o vermelho-ocre das folhas da árvore que sobressaia isolada no meio da relva. O vermelho-ocre, lembra-nos a cor das picadas de África, de onde viemos há 45 anos, retornados por uma guerra, da qual conhecíamos a origem, as motivações. Essa guerra bélica, bem diferente da que vivemos agora, em que o inimigo é desconhecido e traiçoeiro: coronavírus, covid 19…
Claro que a nuvem com o sol a espreitar sairá vencedora, e logo nos vem à memória as palavras de Pablo Picasso: ”Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela, o próprio Sol!”
Assim precisamos nós de ver o Sol em cada mancha amarela ….


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